Bomba e revolução é uma tática de jardinagem revolucionária, um modo especial de cultivar a terra. É abrir buracos no asfalto e no concreto para criar focos de resselvagização do espaço urbano. Resselvagizar é deixar trabalhar o remanejamento imprevisível de forças que se segue ao abandono. É uma experiência que identifica-se com o desaprender ou o desescolarizar no que se refere à necessidade de transformação de saberes, culturas ou crenças sedimentadas e que padronizam nossas relações sociais.

Esta tática envolve dois procedimentos básicos: a bomba de sementes e a revolução da palha. As bombas, feitas de terra, sementes e água são arremessadas em terrenos baldios e canteiros. A revolução da palha é a prática de cobrir o solo com folhas secas e gravetos, ajudando a manter a umidade da terra e favorecendo a germinação das sementes. Ambos os procedimentos são aplicados sobre áreas que protegemos em espaços públicos urbanos por meio de estacas de madeira, fitas de sinalização e uma placa com a inscrição “Pesquisa da Universidade”.

O trabalho que desenvolvemos durante o seminário teve como áreas de estudo o Cais do Valongo, o Morro da Conceição, a Praça Mauá e uma pequena praça ao lado do Banco Central do Brasil, entre a Avenida Presidente Vargas e a Rua Teófilo Otoni. Estas áreas estão localizadas na região portuária do Rio de Janeiro, que vem sendo transformada por um projeto intitulado Porto Maravilha.

O que observamos como efeito da implementação deste modelo de desenho urbano revitalizador é o acirramento da regulamentação e do controle do envolvimento das pessoas com o espaço público. A praça Mauá que se prepara para a chegada das Olimpíadas está atendida por funcionários responsáveis pela limpeza, pela iluminação, pela vigilância e também pela autorização de qualquer intervenção. Na primeira tentativa de realizar nosso trabalho ali fomos impedidos pela Guarda Municipal.

Saindo da praça e seguindo pelas ruas e avenidas, os poucos canteiros existentes diminuem de tamanho, ficam quadrados e a terra é seca. Realizamos a primeira proteção em frente ao Cais do Valongo – aterrado na reforma urbanística de Pereira Passos e redescoberto recentemente. Dois funcionários desempregados da Marinha Mercante se interessaram pelo trabalho e se ofereceram para nos ajudar.

A segunda proteção foi feita ao lado do Banco Central. A terceira, na Praça Mauá, atrás do letreiro que anuncia a #CidadeOlímpica, quando a troca de turno dos guardas possibilitou que desenvolvêssemos nosso trabalho. A quarta foi feita no pátio do museu a convite da comissão organizadora. Estas duas últimas ocorreram durante a feira de trocas e foram resultado de uma ação coletiva de produção de bombas com as sementes coletadas no Morro da Conceição e a terra doada por uma pequena floricultura local.

As proteções foram removidas. Entretanto, as plantas espontâneas denominadas daninhas imprevisivelmente germinam e crescem buscando seu espaço mesmo em lugares onde não são desejadas.


Texto sobre o projeto publicado no livro Escola do Olhar: Práticas educativas do Museu de Arte do Rio 2013-2015, organização de Janaina Melo, 2016, Edição MAR/Instituto Odeon.