Jornal do Itacorubi

Editorial


Nós, editores do jornal, que trabalhamos, estudamos ou já moramos neste bairro – só ainda não tínhamos sido jornalistas –, percebemos que embora o Itacorubi curiosamente tenha de quase tudo (é mata, morro, mangue, creche, faculdades, tratamento ao câncer e são tantos os prédios públicos), além de não ter praia, algo tão representativo de Florianópolis, também não tinha um jornalzinho de bairro em circulação. Pois agora tem!

Este jornal foi elaborado e desenvolvido entre os meses de maio e novembro deste ano. Investigamos e nos envolvemos com o Itacorubi não só pela pesquisa bibliográfica mas também por muito bate perna, de ponta a ponta do bairro: sob o sol ou sob chuvas e pisando em lajota solta ou poça d’água (coisa que também se acumula bastante por aqui). Tomamos café nas padarias e nas casas das pessoas, tomamos cerveja e paqueramos. Enfim: nos envolvemos.

Publicamos algumas informações sobre as histórias do bairro, seu cotidiano, seus distintos cotidianos – o local ora assemelha-se uma cidade interiorana, com comércio fechado ao meio-dia e curiosos à janela, ora a uma agitada capital, com fumaça, congestionamento e barulho de buzina –, seu território e modos de ocupação, as transformações pelas quais passou e as diferentes percepções que os moradores têm a respeito do lugar onde vivem. Também compilamos curiosidades, dicas, informações úteis, enquetes e receitas.

Foram realizadas caminhadas semanais, visitas a instituições, espaços públicos e residências, contato com quem pesquisou aspectos do bairro – como as geógrafas Vera e Maria Carolina que analisaram a construção dos prédios do Itacorubi e o biólogo Matheus, que inventariou as pesquisas sobre o manguezal – e entrevistas aos passantes e pessoas nos seus locais de trabalho nas quais foram abordadas questões sobre segurança, saúde, educação, lazer, convivência, trânsito, mobilidade, atenção do poder público e pontos positivos e negativos do bairro.

Pela escuta de diversos moradores e também de pessoas que trabalham ou geralmente transitam pelo bairro, tentamos pouco a pouco compor um panorama histórico do Itacorubi através de variadas perspectivas. Moradores e frequentadores antigos, mas também gente que chegou agora.

Contribuiu muito com a nossa pesquisa a dona Maria José Amorim da Silva, de 67 anos, mais conhecida como Zezé. Uma das Zezés locais, você provavelmente deve conhecê-la. Nascida e criada no Itacorubi, onde viveram os seus antepassados, Zezé nos acompanhou em várias andanças e, além de suas histórias, nos apresentou moradores que vivem no bairro há muito tempo. Do tempo em que ela era pequena e podia tomar banho nos rios que estão hoje poluídos. Contando assim, nem se acredita, mas Zezé disse que aprendeu a nadar nesses rios.

Mas ainda tem rio, ou parte do rio, pra gente ir se banhar. Gabriel Jorgio, de 21 anos, que mora no bairro com a família, foi quem primeiro mostrou o caminho pra cachoeira no Morro do Quilombo, assim como outros caminhos e atalhos desse morro.

A equipe do jornal teve o prazer de trocar ideias com Dona Olenia, conhecedora de plantas que lavava roupas no rio Itacorubi quando ainda era possível; de ouvir relatos entusiasmados de Dona Didi, que guarda na memória não apenas o ritual das benzeduras (esse ritual tradicional em sua família, mas aprendido/revelado através de um sonho), mas também lembra o número exato de aparelhos telefônicos de que tirava o pó na época em que trabalhou na TELESC (nós, que não anotamos, esquecemos); de saber de histórias antigas da UDESC, contadas por Zeta, referentes ao período em que ela trabalhou lá; de falar com Seu João Batista, que transformou o campus da UDESC em um pomar e hoje planta e cria animais em outro terreno do bairro (em um desses sítios restantes da urbanização, escondidos entre os condomínios); e de conversar com tantos outros moradores que nos receberam e atenderam aos nossos questionamentos quase sempre de forma muito simpática e interessada.

As atividades que culminam com a publicação do jornal ocorreram no contexto do Programa de Extensão da UDESC intitulado Mídias Táticas. A extensão é uma das três funções básicas de uma universidade, junto com o ensino e a pesquisa. São ações de extensão que aproximam a universidade da comunidade, por meio de pesquisas e prestação de serviços. Nesse sentido, a publicação deste jornal é um exercício de uso tático desta mídia e tem como um de seus objetivos estimular as ligações da UDESC com o seu entorno geográfico, ou seja, o espaço e a comunidade do bairro Itacorubi.

O interesse pelo formato jornal se deveu a seu caráter cotidiano e à possibilidade de agrupamento de uma diversidade de conteúdos, bem como a abrangência e o público consolidado deste veículo. Oferecido impresso ao leitor gratuitamente (a verba para produção e impressão da publicação é proveniente de recursos do Programa de Apoio à Extensão da UDESC), o jornal se insere no dia-a-dia de padarias, mercados e outros comércios do bairro, circulando junto aos impressos publicitários e aos periódicos que diariamente são comercializados nesses locais.

Este jornal desloca, contudo, a temporalidade comum de um jornal: uma só edição, misturando reportagens sobre dados atuais com fatos históricos. No Itacorubi convivem mais de um tempo.